Corpo, Jogo e luta.
Compreender o que é jogo, suas diferenças para o esporte, e principalmente o ludicismo esta cada vez mais claro em nossas mentes, mas como ainda estamos no início do estudo, o Huizinga (Homo Ludens – Huizinga, Johan – 2001, 5º ed.) continua a nos surpreender, principalmente quando associa a guerra, a luta ao jogo lúdico, mostrando que apesar da guerra traçar momentos de tristeza e dificuldades, ela se encaixa, segundo o autor, dentro desse movimento do jogo.
Sendo a luta um jogo humano, compreender a associação entre os temas com o corpo, leva nos a tentar entender o trabalho como uma junção dos assuntos e esse foi nosso desafio: Compreender corpo, jogo e luta.
Ritual de guerra dos índios
Após a leitura do capítulo O Jogo e a Guerra do livro Homo Ludens, e de tudo que lemos sobre o corpo e sobre jogo lúdico, percebemos na cultura indígena características que se assemelham com essa junção de fatores.
Os índios são corpos, corpos inteiros que refletem sua totalidade. O artigo “A transformação da visão de corpo na sociedade ocidental” (Júlia P. M. de Souza Pinto e Adilson N. de Jesus – Motriz Jun-Dez 2000, V.6 n.2, p.81-87) nos mostra a visão ocidental de dualismo. A visão cartesiana de homem máquina, matematizável e ainda questiona a “superioridade” ocidental na questão da tecnologia, mas que degrada boa parte dos seres humanos. Os índios na sua cultura fogem dessa idéia, já que demonstra em si sua totalidade. Eles estão longe de serem associados a máquinas, já que são de uma cultura considerada por alguns “pouco evoluída”, mas completa em seus ideais, em seus propósitos simples da vida. Os índios apesar de sua semelhança física, também são pessoas diferentes e complexas, como associa Margarida G. de Matos no livro Corpo, Movimento & Socialização (1994) da qual ela nos fala que mesmo gêmeos monozigotos (idênticos) não são a mesma pessoa. O corpo do índio demonstra em si, em sua arte aquilo que ele é, como da mesma forma hoje na nossa cultura urbana temos pessoas que se tatuam e fazem implantes para demonstrarem o que são, os índios demonstram através de seus corpos sua crença, sua arte, sua luta, sua vida. No livro Espaço e Corpo de Ivaldo Betazzo, Inês Bogéa escreve “O corpo se comunica por movimentos, sons e palavras que expressam um saber”. Os índios fazem isso, eles expressam seu saber e contam sua história e sua cultura através de seus corpos, movimentos, da sua espontaneidade.
Além do corpo como todo outra característica que se assemelha muito é o fator luta. A luta está presente na vida do
índio, seja ela guerreada mesmo contra seus inimigos brancos ou de tribos rivais, seja hoje na luta pela sobrevivência da permanência de sua cultura. Huizinga classifica algumas características de luta sendo jogo lúdico como no caso de haver um espaço e tampo definido para tal, igualdade entre adversários, estratégia, o ritual, a guerra livre e espontânea, a luta pela honra, a decisão do divino, a sorte, a tensão e o divertimento e o não objetivo da morte. Logicamente muitas tribos indígenas, principalmente as da época do descobrimento tinham como característica a morte de seu adversário, sendo até consumido no caso da antropofagia (quando se alimentavam de oponentes com espírito de guerreiros em um ritual) como diz no livro Os índios e o Brasil (Mércio Pereira Gomes) que ressalta a antropofagia principalmente na tribo Tupinambá e também no livro Antropologia (Migração, Guerra e comercio: os Waiãpi na guiana – Dominique Tilkin Gallois, 1986). Essa idéia de morte do oponente faz com que se perca uma característica lúdica, mas apesar disso se encaixa em outros fatores, como o fato de sua luta ser marcada por rituais, ter tempo e espaço, ter o interesse da honra de seus guerreiros ou da luta por sua terra, por suas crenças, ser lutada de forma espontânea, já que faz parte da cultura indígena e é sempre uma honra, traz tensão e divertimento demonstrado em suas festas. A Miriam Moreira de Mello no livro Lúdico, Educação e educação física descreve sobre os jogos lúdicos que as características humanas são marcas fundamentais e isso pode ser visto nas lutas dos índios, e a Liana Abraão Romera também traz a questão do jogo lúdico ser marcado pela espontaneidade e essa aproximação com o brincar pode proporcionar maior valorização dos elementos lúdicos da cultura.
Sabemos da complexidade e da diversidade dos índios, onde cada tribo tem suas características especificas, que podem se encaixar mais ou menos nas características que temos estudado sobre corpo, jogo e luta, como nas tribos Kayapós que eles dividem o acreditam em si como elementos corporais internos (sangue, ossos, órgãos, carne e água), elemento corporal exterior (a pele), um espírito (mekarõ) e energia vital (kadjwýnh). Isso demonstra algumas diferenças, mas acreditamos que através da nossa visão externa das tribos eles representam o corpo como todo, apesar dessas exceções que não corresponde à idéia de todas as tribos, e também consideramos que toda sua totalidade é marcada pela luta de um todo, uma luta que é jogo, que é vida e humana.
Bibliografia:
Livro: Homo Ludens – Huizinga, Johan – 2005, 5º edição.
Artigo: “A transformação da visão de corpo na sociedade ocidental” – Júlia P. M. de Souza Pinto e Adilson N. de Jesus – Motriz Jun-Dez 2000, V.6 n.2, p.81-87).
Livro: Corpo, Movimento & Socialização – Margarida Gaspar de Matos – 1994.
Livro: Os índios e o Brasil – Mércio Pereira Gomes – 1988 – 2º edição.
Livro: Antropologia (Migração, Guerra e comercio: os Waiãpi na guiana) – Dominique Tilkin Gallois – 1986.
Livro: Espaço e Corpo – Ivaldo Betazzo
Livro: Lúdico, educação e educação física- Nelson Carvalho Marcellino – 2003 – 2º edição.
Site: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kayapo/191Site
Site: http://www.corumba.com.br/pantanal/pant_indio.htm
Site: http://www.francisco.paula.nom.br/Armas%20Brasil/Indio/guerra_ind.htm
Autores da presente máteria: Evelin Luizi Farabotti, Mario Wagner Neto, Tainã Aline da Silva, Geisianne de Almeida Barbosa, Juliana da Silva Martins, Rubens Braga de Novais, Leonardo Said .
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